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1932, trabalho e poder — o que a engenharia tem a ver com essa disputa de memória?

20/07/2026

Podcast do Brasil de Fato propõe uma releitura do movimento de 1932 e provoca uma reflexão que também interessa às engenheiras e aos engenheiros — afinal, qual é o lugar de quem trabalha nas grandes disputas econômicas e políticas do país?

A história raramente é apenas uma sucessão de datas. Ela também é uma disputa sobre o significado dos acontecimentos, sobre quem será lembrado como herói, quem será chamado de inimigo e quais interesses serão apresentados como se fossem os interesses de toda a sociedade.

É a partir dessa provocação que o podcast Brasil de Fato Entrevista, publicado em 9 de julho de 2026, apresenta a leitura da historiadora Jullyana Luporini de Souza sobre o chamado Movimento Constitucionalista de 1932. Autora do livro Revolução e Contra-Revolução: a burguesia industrial paulista e o governo Vargas, a pesquisadora questiona a narrativa exclusivamente heroica construída em torno do episódio e propõe observar também os conflitos econômicos, sociais e de classe que atravessavam o Brasil naquele período.

É uma interpretação que pode provocar concordâncias e discordâncias. E talvez seja exatamente por isso que mereça ser ouvida.

O movimento de 1932 ocorreu em uma sociedade profundamente marcada por disputas sobre a reorganização do poder após a Revolução de 1930. São Paulo havia sido uma das principais bases políticas da República Velha e do sistema oligárquico que dominou o país nas décadas anteriores. A própria Fundação Getulio Vargas registra que o estado representava uma das principais estruturas de poder do sistema que o movimento de 1930 pretendia modificar.

Na interpretação apresentada no podcast, a reação de setores da elite paulista não pode ser compreendida apenas como uma defesa abstrata da Constituição. Ela também estaria relacionada à perda de poder político e às transformações que começavam a ocorrer nas relações entre Estado, empresários e trabalhadores. A criação do Ministério do Trabalho, o crescimento da mobilização operária e a crescente presença da questão social no debate público alteravam um ambiente em que, até então, as demandas dos trabalhadores tinham pouca capacidade de interferir nas decisões nacionais.

Essa leitura não significa transformar Getúlio Vargas em herói popular. A própria historiadora rejeita essa simplificação e destaca que o governo Vargas também operava dentro das disputas de poder e buscava mediar interesses entre diferentes grupos sociais. A história real é mais contraditória do que a divisão confortável entre mocinhos e vilões.

Mas há uma questão que atravessa todo esse debate e permanece atual — o que acontece quando trabalhadores e trabalhadoras começam a se organizar e disputar uma parcela maior das decisões políticas, dos direitos e da riqueza que ajudam a produzir?

A história brasileira demonstra que direitos trabalhistas não nasceram da generosidade espontânea de governos ou empregadores. Foram resultado de décadas de conflitos, greves, organização sindical e pressão social. Antes mesmo da CLT, trabalhadores brasileiros já realizavam grandes mobilizações por direitos hoje considerados elementares. A Constituição de 1934 incorporaria avanços sociais e trabalhistas importantes, além de mudanças políticas como o voto secreto e o voto feminino.

E o que isso tem a ver com a engenharia?

Talvez mais do que pareça.

As engenharias ocupam uma posição singular na sociedade. Seus profissionais detêm conhecimento técnico especializado, participam da construção da infraestrutura, da indústria, da produção de energia, do saneamento, das telecomunicações, da mineração, da agricultura e de praticamente todas as estruturas que movimentam a economia.

Essa importância, porém, pode produzir uma ilusão perigosa — a de que formação superior, responsabilidade técnica ou determinada condição salarial retirariam engenheiras e engenheiros do mundo do trabalho.

Não retiram.

A maioria dos profissionais da engenharia depende do próprio trabalho para viver. Tem salário, jornada, metas, chefias, contratos, responsabilidades, risco de demissão e necessidade de garantir condições dignas para exercer sua profissão. Mesmo quem ocupa funções de gestão pode continuar submetido às decisões econômicas de estruturas muito maiores do que sua capacidade individual de influência.

É aqui que a reflexão sobre classe se torna necessária.

Pensar em classe não significa acreditar que todas as pessoas que trabalham possuem os mesmos salários, hábitos, opiniões políticas ou condições de vida. Significa reconhecer que existem diferenças fundamentais entre viver predominantemente do próprio trabalho e controlar o capital, os grandes meios econômicos e as estruturas capazes de definir os rumos da produção e da sociedade.

Um engenheiro pode ter boa remuneração e, ainda assim, perder seu emprego. Pode ser altamente qualificado e sofrer pressão para aceitar salários menores. Pode assumir enorme responsabilidade técnica sem receber remuneração compatível. Pode ser contratado como pessoa jurídica sem possuir verdadeira autonomia empresarial. Pode ver decisões estratégicas tomadas por grupos que jamais assumirão pessoalmente os riscos técnicos, profissionais e humanos dessas escolhas.

Por isso, negar a existência das relações de classe não elimina essas relações. Apenas pode tornar o trabalhador menos consciente da posição que ocupa dentro delas.

O poder também se organiza

Outro aspecto importante levantado pelo podcast é a capacidade histórica das elites econômicas de se organizarem em torno de seus interesses. Empresários possuem entidades representativas. Setores econômicos constroem federações, associações, institutos, bancadas parlamentares e estruturas permanentes de influência sobre governos e sobre a opinião pública.

Isso não é, em si, um segredo ou uma conspiração. É organização de interesses.

A pergunta que deveria interessar a qualquer categoria profissional é outra — por que a organização coletiva é considerada legítima quando realizada pelos setores economicamente mais poderosos, mas tantas vezes tratada como ultrapassada ou ideológica quando realizada pelos trabalhadores?

O sindicato existe justamente porque, isoladamente, o trabalhador negocia em condições desiguais. Isso vale para quem está em uma linha de produção e também pode valer para quem assina projetos de milhões de reais, responde tecnicamente por obras complexas ou administra estruturas indispensáveis ao funcionamento das cidades.

A violência presente nos grandes conflitos da história também precisa ser observada para além do campo de batalha. Existe a violência das armas, que deixa mortos e feridos. Mas existem ainda formas de violência econômica e social — a retirada de direitos, a precarização do trabalho, o desemprego utilizado como mecanismo de medo, o silenciamento das organizações coletivas e a transformação dos interesses de uma minoria organizada em suposto “interesse de todos”.

Revisitar 1932, portanto, não precisa significar substituir uma versão oficial por outra igualmente fechada. Pode significar algo mais importante — recusar uma história sem conflito, sem trabalhadores e sem interesses econômicos.

Para as engenheiras e os engenheiros, a provocação talvez seja ainda mais direta.

Nós sabemos calcular estruturas, dimensionar sistemas, analisar riscos e identificar as forças que atuam sobre uma construção. Mas estamos igualmente dispostos a identificar as forças econômicas e sociais que atuam sobre o nosso próprio trabalho?

Ouvir o podcast e conhecer interpretações diferentes sobre 1932 é um convite a esse exercício.

Não para pensar todos da mesma maneira.

Mas para lembrar que uma categoria que não discute sua própria condição de trabalho corre o risco de compreender profundamente as estruturas que constrói para os outros e muito pouco as estruturas de poder que determinam o seu próprio futuro.

O SENGE-GO convida engenheiras, engenheiros e toda a sociedade a ouvir, refletir, concordar, discordar e debater. Porque democracia também se constrói quando temos coragem de revisitar a história e perguntar quem trabalhou, quem decidiu, quem pagou o preço e quem teve o poder de contar essa história depois.

 

 

 

1932 trabalho e poder



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