O debate sobre inovação tecnológica e seus impactos no mundo do trabalho precisa ocupar o centro da agenda sindical. É o que defende o sociólogo Clemente Ganz Lúcio em artigo publicado pela Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros, ao alertar para os efeitos estruturais da inteligência artificial e das novas tecnologias sobre o emprego, a produção e a organização da sociedade.
Para o Sindicato dos Engenheiros no Estado de Goiás, o tema não é apenas técnico — é profundamente político. A forma como a inovação será incorporada à economia definirá se teremos mais desenvolvimento com justiça social ou aprofundamento das desigualdades.
Tecnologia não é neutra: é campo de disputa
O avanço da inteligência artificial, da automação e das plataformas digitais inaugura uma nova fase do capitalismo, marcada pela centralidade dos dados, pelo controle algorítmico e pela reconfiguração das relações de trabalho.
Como aponta Clemente Ganz Lúcio, diferentemente de ciclos anteriores, a atual revolução tecnológica não substitui apenas o trabalho manual — ela avança sobre funções cognitivas, atingindo diretamente profissionais qualificados, incluindo engenheiras e engenheiros.
Essa leitura converge com o pensamento de autores como:
Shoshana Zuboff, que analisa o capitalismo de vigilância e o poder das grandes plataformas digitais. Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, que discutem os impactos da automação e da IA sobre produtividade e emprego David Autor, que investiga a polarização do mercado de trabalho diante das novas tecnologias. Ricardo Antunes, referência na análise da precarização e das novas formas de exploração do trabalho
Todos apontam para uma mesma direção: a tecnologia, sob a lógica do mercado, tende a concentrar renda, ampliar desigualdades e fragilizar direitos — a menos que haja regulação e organização coletiva.
O papel estratégico do sindicalismo
Para o SENGE-GO, a inovação tecnológica precisa ser enfrentada como uma agenda estratégica permanente. Isso implica:
A história demonstra que os momentos de transformação tecnológica exigem ação sindical organizada. Sem isso, prevalece a lógica da maximização do lucro em detrimento da dignidade do trabalho.
Engenharia, desenvolvimento e soberania
No caso das engenharias, o impacto é ainda mais direto. A incorporação de tecnologias digitais redefine processos produtivos, modelos de gestão e o próprio papel do profissional no desenvolvimento nacional.
O SENGE-GO reafirma que não há projeto de país soberano sem investimento em ciência, tecnologia e engenharia — e sem valorização dos profissionais que constroem essa base.
Uma encruzilhada histórica
O Brasil e o mundo vivem uma encruzilhada: a inovação pode significar mais produtividade, melhores condições de vida e avanço civilizatório — ou pode aprofundar desigualdades, gerar desemprego estrutural e ampliar a concentração de poder.
O desfecho dessa disputa depende da capacidade de organização da classe trabalhadora.
Por isso, o SENGE-GO reforça: inovação tecnológica não é apenas pauta econômica — é pauta sindical, social e política.
REFERÊNCIAS TEÓRICAS E DE PESQUISA
Clemente Ganz Lúcio – artigo: A inovação tecnológica deve ser prioridade para a pauta sindical (FISENGE)
Shoshana Zuboff – The Age of Surveillance Capitalism (2019)
Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee – The Second Machine Age (2014)
David Autor – estudos sobre automação e polarização do trabalho (MIT)
Ricardo Antunes – O privilégio da servidão (2018)
Organização Internacional do Trabalho – relatórios sobre futuro do trabalho e transformação digital
Banco Mundial – estudos sobre tecnologia, emprego e desigualdade
McKinsey Global Institute – relatórios sobre automação e mercado de trabalho