A segurança no setor elétrico brasileiro está longe de ser apenas uma questão técnica — trata-se de uma questão de vida ou morte. O recente falecimento de um trabalhador terceirizado em Goiás, vítima de choque elétrico durante atividade em rede de energia, expõe uma realidade que insiste em se repetir: a distância entre o que determina a norma e o que ocorre no cotidiano das operações.
É nesse contexto que ganha relevância o debate trazido pelo engenheiro Aguinaldo Bizzo, publicado na revista O Setor Elétrico, ao discutir os impactos e desafios da NR10 — norma que estabelece os requisitos mínimos de segurança em instalações e serviços com eletricidade.
NR10: uma norma robusta, mas frequentemente descumprida.
A NR10 é clara: a segurança deve ser garantida em todas as etapas, desde o projeto até a manutenção das instalações elétricas. Ela exige:
Como destaca Bizzo, a norma não se limita à operação, mas abrange todo o ciclo do sistema elétrico — incluindo projeto, construção e manutenção.
Outro ponto central levantado pelo autor é que o risco elétrico é dinâmico e muitas vezes subestimado, especialmente em atividades como manutenção e inspeção, onde há exposição direta a arco elétrico e partes energizadas.
Mais grave ainda: segundo o engenheiro, predominam documentos genéricos e avaliações de risco que não refletem a realidade, o que compromete a eficácia da prevenção.
Quando a norma não chega ao trabalhador
O caso recente em Goiás é emblemático. Um trabalhador terceirizado morreu após sofrer descarga elétrica durante atividade em estrutura de energia. As circunstâncias ainda são investigadas, mas há indícios de contato com linha energizada — situação que deveria ser rigidamente controlada por protocolos da NR10.
Não se trata de um episódio isolado. Em poucos dias, o estado registrou múltiplas mortes por choque elétrico, evidenciando um cenário preocupante.
Esses acidentes revelam falhas estruturais:
Terceirização: o elo mais frágil da cadeia
Estudos do próprio setor elétrico mostram um dado alarmante: trabalhadores terceirizados são as principais vítimas de acidentes fatais.
Isso evidencia um padrão: as atividades mais perigosas são transferidas para trabalhadores com menor proteção institucional.
A terceirização, quando associada à redução de custos, tende a gerar:
Fator humano x lógica do lucro
A análise técnica de Bizzo converge com a realidade sindical: não se trata apenas de erro humano.
O chamado “fator humano” frequentemente é utilizado para individualizar a culpa, quando na verdade
No entanto, na prática, o que se observa é o inverso:
A posição do SENGE-GO: segurança não é custo, é obrigação
Diante desse cenário, o posicionamento sindical é claro: não há justificativa técnica, econômica ou moral para a morte de trabalhadores por falhas evitáveis.
O SENGE-GO defende:
Mais do que isso, é necessário resgatar o papel da engenharia como garantidora da vida e da segurança, e não apenas como instrumento de produtividade.
Conclusão: entre norma e prática, vidas estão em jogo
A NR10 é tecnicamente consistente e suficientemente abrangente. O problema não está na norma — está na sua aplicação.
Cada acidente fatal no setor elétrico não é apenas uma estatística: é o resultado de uma cadeia de decisões, omissões e prioridades.
A morte recente em Goiás reforça um alerta que não pode ser ignorado: enquanto a segurança for tratada como custo, trabalhadores continuarão pagando com a vida.
Referencias da pesquisa
https://www.lirasdaliberdade.com.br/funcionario-terceirizado-morre-carbonizado-apos-choque-em-goias "Funcionário terceirizado morre carbonizado após choque em Goiás"
https://www.seesp.org.br/site/images/Bizzo_WorkshopNRs_SEESP120525.pdf Gestão de Perigos e Riscos Elétricos conforme NR10 e ... - Seesp"
https://www.osetoreletrico.com.br/wp-content/uploads/2022/08/Edicao-188_FinalSIMPLES2.pdf energia incidente - O Setor Elétrico"
https://globoplay.globo.com/v/14374145/ "Três pessoas morreram por choque elétrico em três dias, em Goiás"
https://abracopel.org/wp-content/uploads/2016/10/ARTIGO-NR10_MARCEL-AMORIM.pd revolução das condições de segurança do trabalho no setor elétrico ...