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O preço da omissão: não valorizar a engenharia custa mais caro à sociedade

30/07/2026

Início tardio de sondagens em estruturas de Goiânia demonstra que adiar diagnósticos, projetos e manutenção preventiva aumenta os gastos públicos e expõe a população a riscos evitáveis

     A realização de sondagens do solo sob pontes e viadutos de Goiânia, quase um ano depois da decisão judicial que determinou intervenções emergenciais, evidencia um problema recorrente na administração pública: a engenharia costuma ser convocada quando a deterioração já avançou, os riscos se tornaram visíveis e as soluções passaram a exigir intervenções mais complexas e dispendiosas. A situação foi noticiada pelo jornal O Popular e decorre de ação proposta pelo Ministério Público de Goiás. (O Popular)

     A tutela de urgência foi concedida em agosto de 2025. Posteriormente, em janeiro de 2026, a Justiça confirmou a obrigação do Município de Goiânia de executar obras de manutenção, recuperação e revitalização em quatro pontes da capital: na Avenida T-63, sobre o Córrego Cascavel; na Rua Dr. Constâncio Gomes e na Avenida Universitária, ambas sobre o Córrego Botafogo; e na Avenida 24 de Outubro, novamente sobre o Córrego Cascavel. A decisão também determinou a apresentação de um plano permanente de manutenção, com monitoramento contínuo, estudos técnicos e participação de profissionais habilitados. (Portal MPGO)

      O caso demonstra por que não valorizar a engenharia custa mais caro. Fissuras, infiltrações, falhas de drenagem, corrosão, erosões, recalques e deterioração dos elementos estruturais não surgem repentinamente. São processos progressivos que podem ser identificados e controlados mediante inspeções periódicas, ensaios, sondagens, projetos adequados e manutenção preventiva.

     Quando essas providências são adiadas, um reparo localizado pode transformar-se em obra emergencial. A recuperação passa a exigir reforço estrutural, estabilização de fundações, substituição de elementos, interdição de vias e contratação urgente de serviços especializados. O custo financeiro aumenta justamente porque o poder público deixou de agir quando o problema ainda era menor e tecnicamente mais simples de solucionar.

     Levantamento divulgado pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás avaliou 66 pontes e viadutos da capital e identificou 226 anomalias, incluindo danos em pilares, guarda-corpos e outros componentes. A constatação reforça que a deterioração das estruturas urbanas não é um acontecimento inesperado, mas uma condição que precisa ser acompanhada por meio de política permanente de gestão, inspeção e conservação. (Creago)

    Os prejuízos também não se limitam ao orçamento da obra. A interdição total ou parcial de uma ponte altera trajetos, aumenta congestionamentos e o consumo de combustível, compromete o transporte coletivo, atrasa trabalhadores e dificulta a circulação de mercadorias e serviços. Em casos mais graves, a ausência de manutenção pode resultar em acidentes, danos patrimoniais, responsabilizações judiciais e perda de vidas.

     A Norma DNIT 010/2024 – PRO, referência técnica para inspeções de pontes e viadutos rodoviários, define a inspeção como atividade especializada que compreende o exame da estrutura, a elaboração de relatórios, a avaliação de suas condições e a recomendação de medidas de manutenção, recuperação, reforço ou reabilitação. A norma estabelece diferentes modalidades de inspeção e prevê que as inspeções rotineiras sejam realizadas de forma preventiva e programada. (Serviços e Informações do Brasil)

 Valorizar a engenharia significa manter equipes técnicas permanentes, realizar concursos públicos, assegurar remuneração compatível com as responsabilidades assumidas e oferecer condições para que engenheiras e engenheiros possam diagnosticar riscos e propor intervenções antes da emergência. Significa também respeitar os projetos, os estudos do solo, os ensaios, as normas técnicas e os cronogramas de manutenção.

     Para o Sindicato dos Engenheiros no Estado de Goiás, engenharia não é apenas a execução de uma grande obra. É o trabalho permanente, muitas vezes invisível, de estudar, calcular, projetar, fiscalizar, inspecionar e conservar. Quando esse trabalho é desconsiderado, a sociedade paga duas vezes: primeiro pela ausência de prevenção e, depois, pela recuperação emergencial de um patrimônio que poderia ter sido preservado.

    Investir em engenharia é proteger vidas, conservar o patrimônio público e utilizar com responsabilidade os recursos da população. Mais caro do que realizar inspeções e manutenções periódicas é permitir que a falta de planejamento transforme problemas conhecidos em emergências.

 

Fontes e referências

O POPULAR. Após quase um ano de decisão judicial, sondagem do solo é feita sob viadutos de Goiânia. Goiânia, 30 jul. 2026. Disponível em:
https://opopular.com.br/cidades/apos-quase-um-ano-de-decis-o-judicial-sondagem-do-solo-e-feita-sob-viadutos-de-goiania-1.3438974

MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS — MPGO. Acolhendo ação do MPGO, Justiça determina ao Município a recuperação de pontes em Goiânia. 22 jan. 2026. Disponível em:
https://www.mpgo.mp.br/portal/noticia/acolhendo-acao-do-mpgo-justica-determina-ao-municipio-a-recuperacao-de-pontes-em-goiania

MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS — MPGO. MPGO obtém liminar que determina a execução urgente de obras de recuperação de pontes em Goiânia. 12 ago. 2025. Disponível em:
https://www.mpgo.mp.br/portal/noticia/mpgo-obtem-liminar-que-determina-a-execucao-urgente-de-obras-de-recuperacao-de-pontes-em-goiania

CONSELHO REGIONAL DE ENGENHARIA E AGRONOMIA DE GOIÁS — CREA-GO. Goiânia tem 3 pontes em condição crítica. Disponível em:
https://creago.org.br/noticia/view/1797/goiania-tem-3-pontes-em-condicao-critica

DEPARTAMENTO NACIONAL DE INFRAESTRUTURA DE TRANSPORTES — DNIT. Norma DNIT 010/2024 – PRO: inspeções em pontes e viadutos — procedimento. Brasília, DF: DNIT, 2024. Disponível em:
https://www.gov.br/dnit/pt-br/assuntos/planejamento-e-pesquisa/ipr/coletanea-de-normas/coletanea-de-normas/procedimento-pro/dnit_010_2024_pro.pdf

DEPARTAMENTO NACIONAL DE INFRAESTRUTURA DE TRANSPORTES — DNIT. Publicação IPR 709: Manual de inspeção de pontes rodoviárias. Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisas Rodoviárias. Disponível em:
https://www.gov.br/dnit/pt-br/assuntos/planejamento-e-pesquisa/ipr/coletanea-de-manuais/publicacao_ipr_709_manual-de-inspecao-de-pontes.pdf

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS — ABNT. ABNT NBR 9452:2023 — Inspeção de pontes, viadutos e passarelas: procedimento. Rio de Janeiro: ABNT, 2023. A norma é indicada entre as referências técnicas da Norma DNIT 010/2024. (Serviços e Informações do Brasil)

 

 

 



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