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Privatização: Da CELG ao Saneamento — vamos repetir o mesmo erro?  

10/02/2026

 

 O debate sobre a privatização — direta ou indireta — da Saneago volta ao centro das discussões em Goiás. Apresentada frequentemente como solução para ampliar investimentos e eficiência, essa agenda precisa ser analisada com rigor técnico, memória histórica e compromisso social, especialmente por engenheiros e engenheiras que conhecem de perto a complexidade do saneamento público.

Mais do que uma eventual venda formal da empresa, o que já se observa é um conjunto de processos graduais de privatização. Um dos exemplos mais citados é a concessão de sistemas de esgotamento sanitário à iniciativa privada após pesados investimentos públicos em infraestrutura. Ou seja: o setor público assume o custo inicial — planejamento, obras e financiamento — e, quando o sistema começa a gerar receita, ele é transferido à exploração privada. Esse modelo levanta questionamentos sobre a justiça econômica e a eficiência social do investimento público.

Outro eixo importante são as Parcerias Público-Privadas (PPPs). Embora defendidas como instrumento de modernização, experiências nacionais e internacionais mostram resultados bastante controversos. Diversos estudos apontam aumento tarifário, renegociações contratuais frequentes, dependência de garantias públicas e dificuldades de universalização do serviço. Até hoje, não há consenso técnico de que PPPs em saneamento tenham trazido benefícios claros e sustentáveis para a população, sobretudo em regiões menos rentáveis.

Em Goiás, a memória recente da privatização da CELG também permanece como alerta. A promessa de tarifas mais baixas, maior eficiência e melhoria do serviço não se confirmou para muitos consumidores, que convivem com contas mais caras e persistentes desafios na qualidade da distribuição elétrica. Embora sejam setores distintos, a lógica econômica das privatizações costuma seguir padrões semelhantes: priorização do retorno financeiro, redução de custos operacionais e pressão sobre tarifas.

Paralelamente, cresce a terceirização de serviços técnicos na área de saneamento. Esse movimento impacta diretamente a engenharia pública: reduz quadros próprios, fragiliza a capacidade técnica estatal e frequentemente resulta em contratos caros com baixa resolutividade — a chamada política do “serviço fita crepe”, que remenda problemas sem solucioná-los estruturalmente. A médio prazo, isso pode elevar custos, comprometer o planejamento e reduzir a qualidade do serviço prestado à população. Soma-se a isso a realidade dos trabalhadores terceirizados, muitas vezes mal remunerados e expostos a riscos recorrentes.

É importante lembrar que a discussão sobre privatização do saneamento não é apenas ideológica — ela é técnica, econômica e social. Diversas cidades no mundo, após experiências frustradas de privatização da água e do esgoto, optaram por reestatizar os serviços diante de tarifas elevadas, falta de investimento e perda de controle público sobre um recurso essencial à vida.

Para a engenharia brasileira, especialmente em Goiás, esse debate exige responsabilidade histórica. O saneamento é uma política pública estruturante, ligada à saúde, ao meio ambiente, ao desenvolvimento urbano e à dignidade humana. Não se trata apenas de balanços financeiros, mas de projeto de sociedade.

Engenheiros e engenheiras têm papel central nessa discussão. A aparente neutralidade técnica muitas vezes esconde decisões políticas profundas sobre acesso à água, justiça tarifária e desenvolvimento regional. Mesmo diante de pressões institucionais ou do cotidiano profissional, a categoria não pode se ausentar desse debate.

Mais do que nunca, é necessário que a engenharia se posicione com base em evidências, experiência acumulada e compromisso público. A defesa do saneamento como direito social e infraestrutura estratégica não é apenas uma pauta sindical ou política — é uma responsabilidade técnica e ética da profissão.

 

Água não é mercadoria. A sua privatização levanta questões profundas sobre justiça social, soberania e direitos humanos. Engenheiros e engenheiras precisam ocupar esse debate e fortalecer a luta em defesa do saneamento público e da Saneago.

 

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