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Quando o lucro ameaça a vida, a engenharia precisa levantar a voz.  

26/05/2026

 

     A posição do engenheiro Murilo Pinheiro, presidente da Federação Nacional dos Engenheiros — FNE, sobre a tragédia ocorrida no Jaguaré, em São Paulo, merece ser lida para além do episódio imediato. Ao comentar a explosão registrada durante obra da Sabesp, Murilo chama atenção para um problema estrutural: serviços essenciais, quando submetidos à lógica do lucro de curto prazo, passam a operar sob uma racionalidade que enfraquece equipes, desmonta conhecimento acumulado e transforma segurança em custo. Segundo a FNE, o caso recoloca em debate os impactos da privatização da Sabesp, o enfraquecimento da capacidade técnica da empresa e os riscos de submeter saneamento e infraestrutura urbana às pressões financeiras. 

     O SENGE-GO se soma a essa reflexão com uma posição clara: a lógica do capital, quando colocada acima da vida, é um motor devorador de gente. Ela promete eficiência, modernização e produtividade, mas frequentemente entrega precarização, terceirização sem responsabilidade plena, redução de quadros técnicos, perda de memória institucional e fragilização da engenharia. O capital é autodestrutivo porque consome as próprias bases que sustentam a sociedade: o trabalho, o conhecimento, a natureza, os serviços públicos e a segurança coletiva.

     O desenvolvimento técnico alcançado pela humanidade é extraordinário. Nunca existiu um período histórico com tamanha capacidade de produzir água tratada, energia, saneamento, mobilidade, habitação, tecnologia, comunicação e infraestrutura. A engenharia tem hoje ferramentas, métodos, sistemas de monitoramento, modelagens, materiais e soluções capazes de salvar vidas e organizar cidades mais seguras. O problema não está na técnica. O problema está no fim social que se impõe à técnica. Quando o objetivo central deixa de ser o bem-estar coletivo e passa a ser a maximização do lucro, até a engenharia é rebaixada: deixa de ser instrumento de proteção da vida e passa a ser tratada como etapa protocolar, assinatura em documento ou variável de planilha.

     A tragédia do Jaguaré, que resultou em mortes, feridos, imóveis interditados e famílias desalojadas, ainda exige apuração rigorosa pelas autoridades competentes. A Agência Brasil registrou que a Sabesp realizava obra no local, que uma rede de gás foi atingida e que a explosão ocorreu posteriormente, com confirmação de duas mortes e dezenas de imóveis vistoriados após o acidente. Portanto, não se trata de antecipar conclusões técnicas sem investigação. Trata-se de afirmar que acidentes dessa gravidade não podem ser tratados como fatalidade isolada, desconectada do modelo de gestão, das condições de trabalho, da estrutura técnica disponível e das escolhas políticas e econômicas que orientam serviços essenciais.

     O Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo também alertou que o episódio evidencia um processo preocupante de desestruturação técnica e operacional no saneamento, com redução de quadros próprios, perda de profissionais experientes e substituição por estruturas terceirizadas e precarizadas. Para o SEESP, saneamento básico depende de inteligência técnica, experiência prática, planejamento e formação continuada — não apenas de contratos, equipamentos e indicadores financeiros.

     Essa é uma lição que precisa ecoar em todo o Brasil, inclusive em Goiás. Água, energia, saneamento, transporte, drenagem urbana, barragens, rodovias, redes elétricas e obras públicas não podem ser governadas apenas pela régua da rentabilidade. São sistemas de alta complexidade, nos quais a falha técnica pode significar morte, destruição ambiental, interrupção de serviços e colapso social. A engenharia existe justamente para impedir que a vida humana seja colocada em risco por improviso, negligência, economia irresponsável ou pressão por resultado financeiro imediato.

     A Organização Internacional do Trabalho estima que 2,93 milhões de trabalhadores morrem a cada ano por fatores relacionados ao trabalho e que 395 milhões sofrem lesões ocupacionais não fatais anualmente. Esses números mostram que segurança do trabalho, responsabilidade técnica e condições adequadas de operação não são pautas corporativas: são temas civilizatórios.

     Para o SENGE-GO, a crítica feita por Murilo Pinheiro deve ser entendida como um chamado à categoria e à sociedade. Não há desenvolvimento verdadeiro quando a eficiência é medida apenas pelo lucro. Não há modernização quando se desmonta a inteligência técnica construída por décadas. Não há inovação quando trabalhadores são descartados, engenheiros são silenciados e serviços essenciais são submetidos à lógica de mercado.

     A engenharia precisa estar no centro das decisões, mas não como avalista de projetos orientados exclusivamente pelo capital. Precisa estar como força pública, ética e social, capaz de defender planejamento, segurança, soberania técnica, valorização profissional e compromisso com a vida.

     Porque quando a lógica do lucro ameaça a vida, a engenharia não pode se calar. E quando o capital transforma direitos em custos, trabalhadores em números e cidades em negócios, cabe às entidades da categoria reafirmar: desenvolvimento só é desenvolvimento quando serve ao povo, protege a vida e respeita quem trabalha.

 

 https://www.fne.org.br/index.php/palavra-do-murilo/7629-palavra-do-murilo-quando-a-logica-do-lucro-ameaca-a-vida-e-a-engenharia  "FNE - Palavra do Murilo - Quando a lógica do lucro ameaça a vida e a engenharia"

 https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-05/morre-segunda-vitima-da-explosao-no-jaguare-em-sao-paulo "Morre segunda vítima da explosão no Jaguaré, em São Paulo"

 https://www.seesp.org.br/site/comunicacao/noticias/item/23844-pesar-pela-tragedia-repudio-ao-desmonte-tecnico-do-saneamento  "Pesar pela tragédia, repúdio ao desmonte técnico do saneamento"

  https://www.ilo.org/resource/news/nearly-3-million-people-die-work-related-accidents-and-diseases "Nearly 3 million people die of work-related accidents and ..."

 

 

 

qd a logica do lucra ameaça a vida



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