E Novos investimentos em transmissão, energias renováveis, armazenamento e modernização da rede elétrica abrem oportunidades para Goiás e reforçam um debate essencial: não existe transição energética sem engenharia valorizada, planejamento e responsabilidade técnica
O futuro da energia já está sendo construído — e a engenharia precisa estar no centro desse processo.
A transição energética deixou de ser uma discussão restrita à substituição de fontes fósseis por fontes renováveis. Hoje, ela envolve expansão e modernização das redes elétricas, geração distribuída, armazenamento de energia, digitalização, eficiência energética, biocombustíveis, mobilidade elétrica, novas tecnologias e a preparação da infraestrutura para um novo padrão de produção e consumo.
Para o Sindicato dos Engenheiros no Estado de Goiás (SENGE-GO), esse movimento representa uma grande oportunidade de desenvolvimento para o Estado e para o Brasil. Mas também impõe uma responsabilidade: garantir que a engenharia participe desde o planejamento das políticas públicas até a implantação, operação e fiscalização dos novos sistemas.
Em março de 2026, Goiás instituiu, por meio do Decreto nº 10.872, sua Política Estadual de Energia.
A norma estabelece como objetivos o desenvolvimento sustentável, a competitividade produtiva, a eficiência no uso dos recursos e a segurança do suprimento energético.
Entre suas diretrizes estão a modernização da infraestrutura, a transição para uma economia de baixo carbono, a digitalização, a geração distribuída, o armazenamento de energia, a inovação tecnológica e a atração de investimentos.
A política também determina a elaboração do Plano Estadual de Energia, que deverá orientar o planejamento energético de longo prazo e trabalhar com cenários de oferta e demanda, modernização da infraestrutura e aproveitamento das potencialidades existentes em Goiás.
É uma agenda diretamente relacionada ao trabalho de engenheiras e engenheiros.
Não existe expansão energética sem estudos, projetos, redes de transmissão, subestações, sistemas de proteção e controle, obras civis, telecomunicações, automação, planejamento territorial, análise ambiental, segurança e operação.
Transição energética também é infraestrutura. E infraestrutura exige engenharia.
O Estado também avançou na produção de conhecimento técnico.
O Caderno de Estudos – Caminhos para a Transição Energética em Goiás, produzido pela Secretaria-Geral de Governo em cooperação com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), chegou à terceira edição em 2026.
Os estudos estão organizados em cinco grandes áreas: energias renováveis, eficiência energética, infraestrutura elétrica, tecnologia da informação aplicada ao setor energético e regulação e governança.
Ao mesmo tempo, está em construção o Plano Estadual de Energia de Goiás 2030 (PEEG 2030). Em junho de 2026, representantes do poder público, setor produtivo, empresas de energia, academia e especialistas se reuniram para discutir seus resultados preliminares, incluindo desafios da infraestrutura elétrica, bioenergia, biometano, transportes e perspectivas econômicas.
Essa construção é importante porque decisões tomadas hoje sobre geração, transmissão e infraestrutura terão consequências durante décadas.
E é justamente nesse momento que as entidades representativas da engenharia precisam ocupar o debate.
A dimensão das transformações pode ser percebida também nas decisões tomadas nacionalmente.
Em 8 de setembro de 2026, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) anunciou o processo de consulta pública para o Leilão de Transmissão nº 01/2027, previsto para abril de 2027.
A estimativa é de R$ 12,9 bilhões em investimentos, com a construção de aproximadamente 3.245 quilômetros de novas linhas de transmissão, além da ampliação da capacidade de transformação do sistema.
Os empreendimentos alcançam 13 estados, entre eles Goiás.
A ANEEL estima ainda a criação de 29,5 mil empregos diretos e indiretos.
Outro elemento chama atenção: o leilão terá, pela primeira vez no segmento de transmissão do Sistema Interligado Nacional, um lote destinado à contratação de armazenamento de energia por baterias.
É um exemplo concreto da velocidade das mudanças.
A engenharia que durante décadas trabalhou com um determinado desenho do sistema elétrico começa a lidar, cada vez mais, com armazenamento, redes inteligentes, geração descentralizada, digitalização, automação e novas formas de gerenciamento da energia.
Há uma falsa ideia de que o avanço tecnológico reduz a importância dos profissionais especializados.
Na prática, ocorre justamente o contrário.
Quanto mais complexa se torna a infraestrutura, maior é a necessidade de profissionais capacitados para projetar, integrar sistemas, avaliar riscos, tomar decisões e assumir responsabilidade técnica.
Uma bateria conectada ao Sistema Interligado Nacional não é simplesmente um equipamento instalado em determinado ponto da rede.
Há engenharia elétrica, eletrônica, civil, mecânica, de computação, ambiental, de segurança, telecomunicações, automação e outras especialidades envolvidas.
O mesmo ocorre com usinas solares, biometano, hidrogênio, redes inteligentes, mobilidade elétrica e sistemas digitais de gestão energética.
Por isso, a transição energética não pode significar apenas modernização dos equipamentos. Precisa significar também valorização e atualização permanente de quem detém o conhecimento necessário para projetá-los, implantá-los e operá-los.
O debate goiano acontece dentro de uma transformação nacional.
Em 2026, o Ministério de Minas e Energia colocou em discussão o Plano Nacional de Transição Energética (Plante), instrumento da Política Nacional de Transição Energética destinado a orientar ações de longo prazo para transformação da produção e do consumo de energia.
Também foi aprovado neste ano o Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 (PDE 2035), elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética, que orienta o planejamento da oferta e da demanda energética brasileira para os próximos dez anos.
O Brasil está, portanto, tomando decisões que ajudarão a definir como será sua infraestrutura energética nas próximas décadas.
E Goiás precisa estar preparado não somente para receber investimentos, mas para participar deles com conhecimento, profissionais, empresas, universidades e capacidade tecnológica.
Existe ainda uma dimensão que não pode ficar fora dessa discussão.
Para o SENGE-GO, transição energética justa não significa apenas mudar a matriz energética. Significa garantir desenvolvimento regional, geração de empregos qualificados, formação profissional, inovação e melhoria das condições de vida da população.
Isso necessariamente passa pela valorização das engenharias.
Se a engenharia é considerada estratégica para garantir segurança energética, modernizar redes, projetar novas estruturas e conduzir a transição tecnológica, essa importância também precisa se refletir na valorização profissional.
É preciso discutir carreira, condições adequadas de trabalho, respeito às atribuições profissionais, formação continuada, fortalecimento das equipes técnicas e cumprimento do Salário Mínimo Profissional.
Também é necessário fortalecer a capacidade técnica do poder público.
Um Estado que pretende planejar sua matriz energética, contratar grandes empreendimentos e fiscalizar serviços complexos precisa contar com quadros técnicos qualificados e valorizados.
O SENGE-GO entende que a transição energética oferece uma oportunidade histórica para Goiás.
O Estado possui capacidade produtiva, posição geográfica estratégica, universidades, profissionais qualificados e potencial em diferentes fontes de energia.
Mas aproveitar essas oportunidades exigirá planejamento.
Por isso, engenheiras e engenheiros precisam participar das discussões sobre quais investimentos serão realizados, que infraestrutura será necessária, como as novas tecnologias serão incorporadas e qual modelo de desenvolvimento queremos construir.
Esse debate não pertence apenas aos governos, investidores ou empresas de energia.
Ele também pertence à engenharia.
O Brasil volta a falar de grandes investimentos em infraestrutura, modernização energética, inteligência artificial, ferrovias, saneamento, cidades inteligentes e desenvolvimento sustentável.
Todos esses caminhos se cruzam em algum ponto.
E nesse ponto está a engenharia.
A questão que o SENGE-GO coloca para a categoria e para a sociedade é simples:
se a engenharia é indispensável para construir o futuro, sua valorização também não deveria ser tratada como estratégica para o desenvolvimento do país?
O SENGE-GO continuará acompanhando esse debate e defendendo que a transformação energética seja também uma oportunidade de fortalecer a engenharia, gerar conhecimento, qualificar profissionais e construir desenvolvimento com segurança, inovação e responsabilidade técnica.
AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA – ANEEL. Leilão marcado para abril de 2027, o primeiro com contratação de baterias na transmissão, entra em consulta pública. Brasília, 8 set. 2026. A ANEEL informa previsão de R$ 12,9 bilhões em investimentos, 3.245 km de novas linhas, atuação em 13 estados — entre eles Goiás — e estimativa de 29,5 mil empregos.
GOIÁS. Decreto nº 10.872, de 10 de março de 2026. Institui a Política Estadual de Energia e estabelece sua estrutura de governança e diretrizes de implementação. Goiânia: Governo do Estado de Goiás, 2026.
GOIÁS. Secretaria-Geral de Governo; FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE GOIÁS – FAPEG. Caderno de Estudos – Caminhos para a Transição Energética em Goiás. 3. ed. Goiânia, 2026. Publicação organizada nos eixos de energias renováveis, eficiência energética, infraestrutura elétrica, tecnologia da informação, regulação e governança.
GOIÁS. Secretaria-Geral de Governo. Workshop Resultados Preliminares do Plano Estadual de Energia de Goiás – PEEG 2030. Goiânia, 25 jun. 2026.
BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Plano Nacional de Transição Energética – Plante. Brasília: MME, 2026. O plano integra a Política Nacional de Transição Energética e orienta ações de longo prazo relacionadas à transformação da produção e do consumo de energia.
BRASIL. Ministério de Minas e Energia; EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA – EPE. Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 – PDE 2035. Brasília, 2026. Documento aprovado em julho de 2026 como referência para o planejamento da oferta e da demanda energética brasileira na próxima década.