Para o SENGE-GO, a redução da jornada de trabalho sem redução salarial representa um avanço social e uma oportunidade de valorizar as engenharias, investir em tecnologia e construir um modelo de desenvolvimento que reconheça o trabalho e o direito de viver plenamente.
O Brasil vive um momento importante na história das relações de trabalho. A promulgação da Emenda Constitucional nº 141, em 16 de outubro de 2026, estabeleceu a redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, e a ampliação do descanso semanal remunerado para dois dias.
A mudança começa a produzir seus efeitos em 15 de dezembro de 2026, quando a jornada máxima será reduzida para 42 horas semanais. Em dezembro de 2027, chegará a 40 horas. A regulamentação também admite regimes compensatórios específicos mediante negociação coletiva, observadas as garantias constitucionais.
Para o Sindicato dos Engenheiros no Estado de Goiás (SENGE-GO), a conquista ultrapassa a reorganização das escalas de trabalho. Ela representa uma oportunidade de discutir que tipo de desenvolvimento o Brasil deseja construir e qual o papel das engenharias na promoção de uma sociedade mais produtiva, tecnológica e socialmente justa.
Afinal, a engenharia existe para encontrar soluções, aperfeiçoar processos, superar limitações e melhorar a vida das pessoas. Esse princípio também precisa ser aplicado à organização do trabalho.
Produtividade não é trabalhar mais horas, mas produzir melhor
Durante muito tempo, a ampliação da produção esteve associada à extensão das jornadas de trabalho. Entretanto, o avanço tecnológico, a automação, a digitalização e o desenvolvimento de novos métodos de gestão demonstram que o aumento da produtividade também depende de planejamento, qualificação profissional, investimentos e eficiência.
Dados do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), revelam importantes desafios estruturais da economia brasileira. Entre 1995 e 2024, a produtividade por hora trabalhada na indústria de transformação registrou recuo médio de 0,9% ao ano. Na construção civil, a redução média foi de 0,4% ao ano.
Esses resultados evidenciam que o Brasil precisa enfrentar problemas que vão muito além da quantidade de horas trabalhadas. São necessárias políticas de modernização industrial, investimentos em infraestrutura, atualização tecnológica, qualificação profissional e valorização do conhecimento técnico.
É justamente nesse cenário que as engenharias assumem papel estratégico.
Na construção civil, processos de industrialização, projetos compatibilizados, ferramentas de modelagem digital e melhor planejamento de obras podem reduzir desperdícios, retrabalhos e atrasos. Na indústria, automação, manutenção preditiva, inteligência artificial e aprimoramento dos processos podem elevar a eficiência operacional. Nos setores de energia, saneamento, transportes e agroindústria, soluções tecnológicas permitem otimizar recursos, melhorar serviços e ampliar a capacidade produtiva.
A redução da jornada coloca um desafio concreto para empresas e profissionais: preservar a qualidade e a segurança das atividades, reorganizando métodos de produção e investindo em soluções sustentáveis.
O progresso tecnológico deve permitir que as pessoas produzam melhor, e não apenas que trabalhem cada vez mais.
Os números mostram a dimensão dessa transformação
Segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), com base na PNAD Contínua de 2025, a redução da jornada máxima para 40 horas poderá beneficiar aproximadamente 26,8 milhões de trabalhadores brasileiros.
Desse total, cerca de 22 milhões são empregados formais, o equivalente a 54% dos trabalhadores com carteira assinada considerados no levantamento. Outros 4,8 milhões são trabalhadores informais com jornadas superiores a 40 horas semanais, que podem ser alcançados indiretamente pelas transformações no mercado de trabalho, embora não tenham automaticamente as mesmas garantias contratuais.
No setor da construção, a dimensão econômica reforça a importância de uma transição planejada. A Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC), do IBGE, identificou em 2024 aproximadamente 191 mil empresas ativas e 2,5 milhões de pessoas ocupadas.
A reorganização dessas atividades exige atenção aos cronogramas, contratos, custos, escalas, segurança e qualificação das equipes.
No debate econômico, estudos apresentam estimativas distintas. Nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicada em fevereiro de 2026, indicou que, em grandes setores empregadores, como indústria e comércio, o impacto direto da redução da jornada sobre o custo operacional total seria inferior a 1%.
Por outro lado, estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado em abril de 2026, projetou, em seu cenário de modelagem, uma redução de 0,7% no Produto Interno Bruto, equivalente a R$ 76,9 bilhões, em decorrência da mudança.
As diferentes projeções refletem metodologias, hipóteses e indicadores distintos. Elas reforçam a necessidade de acompanhamento técnico dos impactos e de políticas que promovam a modernização produtiva, especialmente nos segmentos com maior dependência de mão de obra.
Para o SENGE-GO, essa discussão também precisa reconhecer o valor dos profissionais responsáveis pelo planejamento, pela transformação tecnológica e pela execução das atividades produtivas.
Experiências internacionais apontam caminhos
A relação entre redução da jornada, produtividade e qualidade de vida também tem sido investigada internacionalmente.
Um experimento realizado no Reino Unido, entre junho e dezembro de 2022, envolveu 61 organizações e aproximadamente 2.900 trabalhadores, com redução de 20% da jornada e manutenção dos salários.
A pesquisa, acompanhada por especialistas da Universidade de Cambridge e de outras instituições, identificou resultados expressivos:
Ao final do experimento, 92% das organizações participantes manifestaram intenção de manter o modelo.
Embora a experiência tenha adotado uma jornada de quatro dias, diferente da transição brasileira para cinco dias de trabalho e dois de descanso, ela demonstra que existem possibilidades concretas de reorganização produtiva sem associação automática entre menos horas e menor desempenho.
Os resultados, naturalmente, não podem ser generalizados para todos os setores. Atividades de operação contínua, construção pesada, manutenção industrial e serviços essenciais apresentam particularidades que exigem soluções específicas.
E é precisamente nesse ponto que o conhecimento das engenharias se torna indispensável.
Saúde, segurança e o direito ao descanso
A redução da jornada também precisa ser compreendida como uma questão de saúde e segurança do trabalho.
Estudo conjunto da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), divulgado em 2021, estimou que jornadas de 55 horas semanais ou mais estiveram associadas a 745 mil mortes por acidente vascular cerebral e doença cardíaca isquêmica em todo o mundo, em 2016.
Embora esses resultados não possam ser diretamente transferidos para jornadas de 40 ou 44 horas, eles evidenciam os riscos das jornadas excessivas e a necessidade de considerar o tempo de trabalho como um determinante da saúde.
Para as engenharias, essa preocupação é especialmente relevante. Em atividades que envolvem estruturas, máquinas, instalações elétricas, equipamentos pesados, processos industriais e grandes obras, a atenção, o descanso e as condições físicas e mentais dos profissionais são componentes fundamentais da segurança operacional.
Valorizar o profissional significa, portanto, reconhecer que sua capacidade de produzir soluções técnicas depende também de condições dignas de trabalho, remuneração adequada, formação continuada e tempo para recuperar suas energias.
Valorizar as engenharias é valorizar quem constrói o desenvolvimento
O avanço tecnológico não acontece isoladamente. Por trás de uma indústria modernizada, de uma obra de infraestrutura, de um sistema de abastecimento, de uma rede de energia ou de uma inovação produtiva, existem profissionais que estudam, projetam, calculam, planejam, coordenam e assumem responsabilidades técnicas.
O trabalho dos engenheiros e das engenheiras é fundamental para o desenvolvimento econômico e social do país.
Por isso, a transição para jornadas menores precisa estar acompanhada da valorização profissional, do respeito aos pisos salariais, de oportunidades de qualificação e de condições adequadas de exercício da profissão.
A Lei nº 4.950-A/1966, que dispõe sobre a remuneração de profissionais diplomados em Engenharia, Arquitetura, Agronomia e áreas abrangidas por sua redação, permanece uma referência histórica na luta pelo salário profissional. Sua aplicação deve observar a legislação e a jurisprudência vigentes, assim como os instrumentos coletivos da categoria.
A Emenda Constitucional nº 141/2026 também prevê particularidades para determinadas modalidades de contratação, profissionais com remuneração elevada e regimes compensatórios. Por isso, o acompanhamento sindical e a negociação coletiva serão importantes na implementação das novas regras.
O compromisso com a valorização das engenharias envolve igualmente reconhecer que o profissional não pode ser visto exclusivamente como um recurso produtivo. Ele é uma pessoa com família, relações sociais, interesses culturais, necessidades afetivas e projetos pessoais.
O desenvolvimento deve gerar riqueza, mas também condições para que essa riqueza se traduza em oportunidades de uma vida melhor.
A engenharia do futuro também precisa pensar nas pessoas
A história das engenharias está diretamente relacionada à capacidade humana de transformar a realidade.
Construímos pontes para aproximar lugares, sistemas de transporte para facilitar deslocamentos, tecnologias para reduzir esforços, redes de energia para sustentar atividades econômicas e estruturas para proporcionar segurança e conforto.
Mas o verdadeiro sentido desses avanços está na melhoria das condições de vida da sociedade.
Não seria coerente que o progresso tecnológico proporcionasse eficiência cada vez maior às empresas sem ampliar, também, as possibilidades de bem-estar dos trabalhadores que participam dessa transformação.
Para o SENGE-GO, o fim da escala 6x1 integra uma discussão mais ampla sobre o futuro do trabalho, a distribuição dos ganhos de produtividade e o reconhecimento da contribuição das engenharias para o desenvolvimento nacional.
Uma economia moderna precisa de empresas competitivas, infraestrutura de qualidade, inovação e profissionais altamente qualificados. Precisa também de trabalhadores justamente remunerados, seguros e respeitados, com tempo disponível para exercer plenamente sua cidadania.
O trabalhador não deve apenas construir o mundo, mas ter o direito de viver tudo aquilo que ajuda a construir.
Defender a valorização das engenharias é defender um desenvolvimento no qual tecnologia e qualidade de vida caminhem juntas. Um futuro em que engenheiros e engenheiras tenham oportunidades de realização profissional, remuneração digna e tempo para conviver com suas famílias, estudar, descansar, viajar, participar da vida cultural e experimentar tudo o que a existência pode oferecer.
Porque o progresso não pode ser medido somente pelo que somos capazes de produzir, mas também pela qualidade da vida que somos capazes de proporcionar.
SENGE-GO — Sindicato dos Engenheiros no Estado de Goiás
Fontes e referências
